Hoje resolvi fazer um post bem direcionado à cidade de Curitiba que é onde trabalho e moro atualmente. No entanto muito do que vou comentar aqui vale para qualquer cidade. O post acabou ficando enorme, mas recomendo ter um pouco de paciência e ler até o final, garanto que vale a pena!
Primeiro quero deixar claro que tudo o que está escrito abaixo é somente uma opinião pessoal minha, afinal, isso é um blog. Então levem isso e consideração enquanto estiverem lendo o texto.
A inspiração do post saiu de um vídeo colocado no YouTube que foi gravado pelo alunos do 3º ano de Jornalismo da Universidade Positivo em Curitiba. Eles entrevistaram três pessoas que trabalham com música na cidade:
Virgilio Milleo – Produtor e fundador do estúdio Audiostamp.
Beth Moura – Produtora Cultural na Verdura Produções.
Maricel Ioris – Cantora e Compositora.
Obviamente a opinião de somente três profissionais não representam toda uma cidade, mas posso dizer que chegam bem próximos do que a maioria pensa por aqui. Portanto antes de continuar lendo assistam ao vídeo abaixo com a reportagem.
Vamos aos pontos principais abordados no vídeo. Coloquei ao lado de cada tópico a minutagem que o assunto começa para que possa acompanhar mais facilmente.
1) Carreira Musical em Curitiba (02:35 do vídeo)
Realmente a carreira musical em Curitiba é difícil, mas a questão é que o problema não é a cidade e sim a carreira em si. Viver de música é difícil em qualquer parte do mundo hoje em dia, não adianta se iludir. Para conseguir retorno e sucesso você precisa estudar muito, trabalhar muito, se dedicar muito, ser muito bom no que você faz, contar com um pouco de sorte e ainda estabelecer uma boa rede de contatos.
Talvez a pergunta e a resposta tenha sido mal colocada e o correto seria perguntar sobre o mercado musical em Curitiba, mas vou falar sobre isso mais abaixo.
2) “Cena Musical” de Curitiba (03:00 do vídeo)
Eu sempre torço o nariz quando escuto essa expressão “cena musical”. Para mim isso é muito abstrato e envolve tantos fatores que fica inviável de dizer se existe ou não uma real cena acontecendo. Todo fim de semana temos festas com DJs e música eletrônica, assim como eventos e festas ligadas ao Hip-Hop, e também diversos shows underground com bandas de estilos alternativos, hardcore, e outros.
Isso não pode ser considerado como uma cena musical? No meu ponto de vista sim, mas se essa cena musical traz dinheiro e reconhecimento é outra história.
E é isso que eu acho que eles tentaram abordar nesse ponto do vídeo: o reconhecimento local de bandas e artistas musicais. Eu concordo quando dizem que o retorno é muito pequeno por aqui, mas faltou falar das razões por trás disso. Muitas delas envolvem o seguinte:
- Músicos com pouco estudo e/ou técnica;
- Donos de casas e eventos que não sabem promover e administrar um negócio;
- Produtores e promoters de festa que não sabem divulgar e fazer bons contatos;
- Rádios e Redes de TV locais que não sabem montar bons programas em bons horários e que copiam a “receita de bolo” de outras cidades;
- Motivos políticos e econômicos que bloqueiam novas idéias e propostas promissoras
- Baixa atitude profissional na organização de contratos e direitos
São diversos fatores que prejudicam o reconhecimento local, mas para mim o principal é a falta de contato e união que existe por aqui. Eu sempre fico impressioando quando percebo que as bandas não se comunicam, que as produtoras não se comunicam, que as casas não se comunicam, enfim, que os profissionais do mercado da música local não se comunicam!
Como uma cidade quer ter reconhecimento musical nacional se nem nela mesma existe isso? Todos ficam preocupados em aparecer, mas esquecem que para isso precisam dar as mãos para os “colegas de mercado” que estão no mesmo barco.
No momento que isso mudar tenho certeza de que o reconhecimento vem. Precisa de um exemplo? Seattle com a explosão grunge no final dos anos 80 e início dos anos 90. Por que São Paulo e Rio de Janeiro são referências nacionais? Oras, lá todo mundo se conhece e sabe o que está rolando.
3) Oportunidade em Curitiba (05:07 do vídeo)
Isso tem um pouco a ver com o que foi colocado acima, mas vou elaborar em cima do que foi falado no vídeo.
Primeiro precisa ficar claro que, a princípio, o único objetivo de um bar ou festival é ter público e ganhar dinheiro. Se um artista ou promoter desconhecido aparece em uma casa para fechar um evento é óbvio que não vão aceitar. Para que movimentar empregados, segurança e toda logística necessária para abrir uma casa se não existe garantia alguma de que o evento dá dinheiro?
Outro ponto é que antes de tudo, quem precisa saber que o show vai dar certo é a própria equipe que está organizando. Se a própria equipe não quer investir ou bancar então algo está muito errado. Pode ter certeza de que se você banca um evento inteiro e consegue um ótimo lucro, na próxima vez a casa vai pensar duas vezes antes de deixar tudo na sua mão e perder a chance de pegar uma porcentagem do lucro. E se mesmo assim isso não acontecer, quem perde é a casa.
Lógico que tudo precisa de investimento, e quem não tem dinheiro do próprio bolso para colocar faz o que? Simples, monta um ótimo projeto escrito com todos os pontos bem explicados, que prove o retorno financeiro do evento, e procura por patrocínio ou investidores. Sinceramente acho difícil acreditar que mesmo assim as coisas não funcionam.
Todo bom investidor sabe identificar onde é bom e onde é ruim colocar seu capital, se ele não aceitou sua proposta então ela não estava boa, pode aceitar.
4) Valorização da Arte em Curitiba (05:43 do vídeo)
Acho que aqui rolou uma confusão muito comum entre arte e mercado musical.
Se alguém quer que sua arte tenha espaço e seja valorizada, existem espaços para isso, mas antes tenha certeza de que sua arte realmente mereça ser valorizada. Comprar um violão, baixar tablatura e sair tocando Beatles não é fazer arte.
No Brasil existem diversas leis de incentivo à arte e cultura, se o objetivo é ter a arte valorizada então eu recomendo procurar mais informações. Em Curitiba nós temos a Fundação Cultural de Curitiba para isso.
Já o mercado musical procura outra coisa, o dinheiro. Se sua arte não traz dinheiro então você não vai entrar no mercado musical ou o “mainstream” como foi colocado.
Muitos músicos ficam anos batalhando e desistem frustrados, e isso realmente é complicado e triste, mas de quem realmente é a culpa? Se formos analisar boa parte dos casos, o que acabou faltando foi primeiramente a boa música, e também a falta de planejamento e profissionalismo.
5) Aceitação do que é “Novo” em Curitiba (07:23 do vídeo)
Esse trecho me incomodou bastante por duas razões.
Primeiro porque não tem ninguém em Curitiba fazendo nada de novo ou revolucionário, pode ter certeza. E isso acontece porque a música como um todo chegou num ponto de saturação, tudo já foi explorado em termos de notas, rítmica, harmonia e eletroacústica. E como ainda não tem ninguém tentando descobrir uma nova dimensão sonora conectando um cabo ao seu cérebro, então não, não tem nada de novo.
Segundo porque faltou um pouco de conhecimento histórico de como a música funciona na humanidade. Novos estilos e propostas musicais nunca foram aceitas em sua época, independente de onde a pessoa esteja. Diversos compositores morreram pobres e solitários antes de sua música ser valorizada, então não podemos dizer que isso é algo singular de Curitiba.
Talvez o que quiseram passar no vídeo é que novos artistas não são bem aceitos. E isso também é mais do que normal. Vivemos em uma época de spam de informações nas mídias, sempre com “novos sons” ou “novos estilos” e para um leigo fica realmente difícil separar um tempo para ouvir aquela nova banda da cidade.
E com isso o que resta é justamente o que foi colocado pela Maricel em seguida, que os artistas primeiro precisam criar um público para depois conseguirem buscar mais oportunidades. E isso não é algo ruim, é algo necessário na carreira artística de qualquer um. Se você não consegue criar um público então é melhor desistir agora, ou então se conformar em só colocar sua música online para registro.
O mais incrível é que vivemos em uma época onde temos milhares de ferramentas e opções de divulgaçao para a música, o que facilita demais um artista ser reconhecido. Hoje em dia uma banda que souber como a internet e seu público alvo funciona é só por a mão na massa que ela consegue montar um público mínimo. Quer um exemplo novamente? Veja o canal do Boyce Avenue no Youtube, são somente covers, mas deu certo, vive somente disso e ainda está para fazer turnê na Europa! E não vale dizer que é superproduzido, acompanhe os primeiros vídeos e veja como tudo começou.
6) Considerações Finais
Gostei muito de ter isto esse vídeo, pois mostra que ao menos existem mais pessoas preocupadas com o mercado, mas seria bom também mostrar soluções e novas propostas. Não adianta somente reclamar, precisa trabalhar para mudar isso.
Eu atualmente não sou ninguém no mercado musical, mas estou tentando mudar isso. Tenho feito contato com pessoas 20 anos mais velhas do que eu e também pessoas 20 anos mais novas, pessoas com opinioes totalmente diferentes, e pessoas com idéias malucas e revolucionárias. Inclusive conheço o trabalho das três pessoas no vídeo, e encontrei pessoalmente com duas delas.
E por que isso é necessário? Simplesmente porque independente do que cada um de nós faz ou pensa, no aspecto geral estamos todos envolvidos na mesma área que é o mercado musical.
Precisamos encontrar uma forma de trabalhar juntos e de conhecer o trabalho de todos. Só assim é que o resultado virá, e que vamos conseguir reverter o quadro desfavorável.
Para fechar de vez esse enorme texto, vejam um documentário parecido realizado em São Paulo com o foco no futuro da música, o WE.MUSIC:
WE.MUSIC – COMO A WEB REVOLUCIONA A MÚSICA? from youPIX on Vimeo.
Perceberam como a abordagem e as idéias são diferentes?
O que acharam? Deixe um comentário aí!
Se você chegou até aqui, obrigado por ler tudo!







